TOC, TOC, TOC – de Walcyr Carrasco

Toc, toc, toc!
O que pode acontecer quando
o vizinho é barulhento

Walcyr Carrasco

Todas as manhãs meu amigo Eduardo desperta precisamente às 6 horas. Não, ele não tem compromisso no horário. A vizinha de cima tem. Mal levanta, bota seus sapatinhos elegantes e caminha de um lado para o outro. O barulhinho dos saltos repercute como marteladas no apartamento de baixo. Toc, toc, toc. Vai escovar os dentes. Toc, toc, toc. Passar batom. Toc, toc, toc. Pegar a bolsa. Toc, toc, toc. Trocar de bolsa. A cada toc, toc, Eduardo se remexe na cama como uma enguia. Aconselhei:

– Dê a ela umas pantufas bem acolchoadas de presente de Natal!

Ergueu as sobrancelhas, desanimado:

– Seria inútil, por causa da gralha.

Sim! A vizinha do prédio de trás cria uma gralha. A dita-cuja berra até o anoitecer. Eduardo já quis chamar o Ibama. Invadir o apartamento com a polícia. Toc, toc, toc. Os saltinhos! Ele arregala os olhos. Poinc, poinc! A gralha! Ele pensa: “Por que nasci?” De noite, tenta tirar uma soneca. Tenta. Ah, sim, o marido e os filhos da vizinha dos sapatos ensaiam bateria depois do expediente. Eduardo exigiu silêncio. O pai, surpreso:

– O que há com você? Nunca reclamaram antes!

Mudar-se para o apartamento espaçoso e confortável foi um sonho que demorou anos para ser conquistado. Hoje pensa em botar fogo em tudo.

Não é o único. Um senhor comprou um andar inteiro em Higienópolis. Acabamento de primeira. Preço excepcional. Viu no sábado, bateu o martelo na segunda. Foi mudar e descobrir: todos os quartos davam para os fundos de um hospital. O gerador e as caldeiras eram piores que um terremoto, dia e noite. O corretor havia marcado a visita justamente no horário em que tudo ficava parado! Elegante ou não, o casal refugiou-se em um colchão na sala. Acabou vendendo por menos do que comprou, para outro incauto.

Conheço uma senhora idosa que vivia havia anos no Largo do Arouche. Acordava com o trinado dos passarinhos. Montaram uma boate gay exatamente atrás. Nunca havia ouvido falar em som tecno. Agora passa todas as noites vibrando com a performance de algum DJ fervilhante. Agarrada no rosário.

Há quem exagere. Um casal de amigos mudou-se para um prédio antigo. Dois dias depois, o morador de baixo bateu na porta:

– Vocês andam muito dentro do apartamento. É melhor só usar meias.

– Eu gasto uma grana para ser forçado a tirar os sapatos? Jamais!

Quase acabaram na polícia.

Acho que tenho sorte. Minha vizinha de cima é viúva e silenciosa. Gosta de música clássica. Eu também. Só tem o estranho hábito de fazer os serviços domésticos de madrugada. Certa vez, fui viajar e deixei um hóspede. Ao voltar, ele avisou:

– Acho que seu apartamento tem fantasmas.

– Como? – tremi.

– De noite ouvi vassouras varrendo, ruído de panelas.

Ficamos de plantão. Que fantasma, que nada! Era ela espanando os móveis! Varrendo! Encerando!

O pior são as obras. Como alguém pode demorar meses martelando as paredes para trocar o encanamento? Séculos para mudar os azulejos de um único banheiro? A casa vizinha à de Márcia, uma amiga, está sendo reformada. Outro dia caíram duas telhas em cima do gato. Com o bichano tudo bem. Os humanos quase atiraram telhas entre si. Márcia é escritora como eu. Trabalha em casa. Passa os dias criando. Está à beira da loucura. Talvez a literatura saia ganhando com as marteladas. No mínimo, ela vai escrever uma nova versão de Jack, o Estripador.

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